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Comportamento

    Comportamento

    Colecionismos.

    Enquanto eu tentava descobrir o que escrever nesse espaço em branco, resolvi colocar ordem na bagunça em que vive meu quarto. E, enquanto colava na prateleira uma moeda pra lembrar da conversa que me tirou dos trilhos, percebi o quanto eu coleciono tudo.

    Antes eu colecionava milhares de adesivos e carimbos. A coleção crescia religiosamente toda semana até que um dia empacou e sei lá que fim levou. Depois disso, colecionei folhas de fichário. Eu nem usava fichário, mas ganhava, comprava, trocava e guardava. Pra nunca serem usadas e sei lá que fim levaram. Coleção de fotos de banda, perdida e reconstruída depois de formatações de computador e eventualmente apagadas para sempre quando foi a hora de perceber que de nava significavam.

    Junto com essa última, comecei a colecionar palavras. Páginas e páginas escritas de palavras que vinham sei lá de onde e paravam ali no papel. Algumas conheceram até conquistaram um espacinho no mundo e foram lidas por uma ou duas dúzias de pessoas. Talvez mais, talvez menos.

    Aí veio a coleção de cartas de amor (e dor de quem ama de longe). A coleção das cartas que recebi e a coleção de cartas que escrevi – inclusive a que entreguei a coleção toda de uma vez, soterrando em papel, palavras e sentimentos o amor que já tinha até acabado. Que fim levaram? As minhas devem estar perdidas no fundo do guarda-roupa, num envelope lacrado, pra não ler mas não ter que carregar o peso da decisão de jogar fora. As dela já devem ter se perdido em pedaços nesse mundo.

    A coleção de palavras não parava de crescer. Um bocado delas foi parar espalhado pela internet, outro bocado se perdeu entre backups mal feitos e cadernos reciclados.

    Mais uma coleção de tudo que cabe numa caixa e representava outro amor. Florzinhas secas, ingressos, presentes inesperados, bilhetes. Eu sou esse tipo de colecionista. Tudo isso preso em uma caixa que vai acabar também perdida no fundo do guarda-roupa.

    Mas em meio a tanta coleção guardada em tantas caixas e pastas e cadernos, tem mais uma porção de coleção: sonhos, expectativas, preocupações, crises e sentimentos. Mas a maior de todas sempre será a coleção de palavras não ditas, pela falta de coragem ou excesso de zelo. Tá na lista de coisas pra mudar, um dia, quem sabe. Enquanto isso, vivo num estado constante de engolir palavras, engasgar e sufocar.

     


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